A indústria de suplementos movimenta bilhões por ano — e uma parte significativa desse dinheiro é gasto em produtos que não fazem o que prometem. Embalagens chamativas, influenciadores patrocinados e promessas de resultados rápidos vendem muito. Mas o que a ciência realmente valida?

Vamos analisar os suplementos mais populares e separar os que funcionam dos que são, na melhor das hipóteses, desnecessários.

Os que funcionam (com evidência forte)

Creatina

Veredicto: funciona. Um dos suplementos mais estudados da história.

A creatina é produzida naturalmente pelo corpo e encontrada em carnes e peixes. A suplementação aumenta os estoques de fosfocreatina nos músculos, o que melhora a performance em exercícios de alta intensidade e curta duração.

O que a ciência mostra:

  • Melhora a força e potência — efeito consistente em centenas de estudos
  • Pode aumentar ganho de massa muscular — indiretamente, por permitir treinar com mais intensidade
  • Segura para uso prolongado — não causa danos renais em pessoas saudáveis (mito comum)
  • Pode ter benefícios cognitivos — pesquisas preliminares sugerem melhora em memória e raciocínio

Dose: 3-5 g por dia de creatina monoidratada. Não precisa de fase de carga. A forma mais barata (monoidratada) é a mais estudada e eficaz.

Custo-benefício: excelente. Um dos suplementos mais baratos e mais eficazes.

A creatina não é “só para quem puxa ferro”. Estudos mostram benefícios para idosos, vegetarianos e até em saúde cognitiva.

Whey Protein (proteína do soro do leite)

Veredicto: funciona, mas não é mágico.

Whey protein é simplesmente proteína em pó extraída do leite. Não é anabolizante, não é remédio — é comida em forma concentrada.

Quando vale a pena:

  • Se você não consegue atingir sua meta de proteína com alimentos (1,6-2,0 g/kg para quem treina)
  • Como opção prática pós-treino ou em lanches
  • Para vegetarianos que têm dificuldade de consumir proteína suficiente

Quando NÃO vale a pena:

  • Se você já come proteína suficiente pela alimentação — o corpo não usa o excesso
  • Como substituto de refeições completas — falta fibra, micronutrientes e saciedade

Dose: 20-40 g por porção, 1-2 vezes ao dia conforme necessidade.

Vitamina D

Veredicto: funciona para quem tem deficiência — e muita gente tem.

A vitamina D é produzida pela pele com exposição solar. Mas na prática, grande parte da população tem níveis insuficientes — especialmente quem trabalha em ambiente fechado, usa muito protetor solar ou vive em regiões com pouco sol.

O que a ciência mostra:

  • Essencial para saúde óssea (absorção de cálcio)
  • Papel importante no sistema imunológico
  • Deficiência associada a fadiga, fraqueza muscular e humor baixo

Recomendação: Faça um exame de sangue para verificar seus níveis antes de suplementar. Se estiver abaixo de 30 ng/mL, a suplementação é indicada — converse com um profissional sobre a dose.

Cafeína

Veredicto: funciona como ergogênico (melhora performance).

A cafeína é o suplemento ergogênico mais utilizado no mundo. E com razão — funciona.

O que a ciência mostra:

  • Melhora performance em exercícios de resistência e força
  • Aumenta foco e alerta — efeito no sistema nervoso central
  • Pode ajudar na queima de gordura — efeito modesto, mas real

Dose: 3-6 mg por kg de peso corporal, 30-60 minutos antes do treino. Uma xícara de café forte tem ~80-100 mg.

Atenção: Tolerância se desenvolve com o tempo. Use estrategicamente, não todos os dias.

Os questionáveis (evidência fraca ou mista)

BCAA (aminoácidos de cadeia ramificada)

Veredicto: provavelmente desnecessário se você já come proteína suficiente.

Os BCAAs (leucina, isoleucina e valina) são aminoácidos essenciais presentes em qualquer fonte proteica. A suplementação isolada virou febre, mas a ciência é clara:

  • Se você consome proteína suficiente (1,6+ g/kg/dia), BCAAs extras não trazem benefícios adicionais
  • Eles já estão presentes no whey, frango, ovos, carne, peixe
  • Estudos recentes não mostram vantagem em recuperação ou ganho muscular quando a proteína total é adequada

Quando pode fazer sentido: Em treinos em jejum prolongado ou para quem consome pouca proteína total. Para a maioria, é dinheiro jogado fora.

Colágeno

Veredicto: evidências fracas para a maioria dos usos prometidos.

O colágeno virou queridinho do marketing — prometem pele jovem, articulações saudáveis e cabelo brilhante.

O que a ciência mostra:

  • Para pele: alguns estudos mostram melhora modesta em elasticidade e hidratação, mas a qualidade da evidência é baixa
  • Para articulações: pesquisas com colágeno tipo II mostram resultados mistos para dor articular
  • O problema fundamental: colágeno ingerido é digerido como qualquer proteína — o corpo não direciona os aminoácidos para pele ou articulações

Se quiser tentar: 10-15 g por dia por pelo menos 8-12 semanas. Mas não espere milagres.

Multivitamínico

Veredicto: provavelmente desnecessário se sua alimentação é variada.

A indústria de multivitamínicos vende a ideia de “seguro nutricional”. Mas pesquisas de larga escala não encontraram benefícios significativos:

  • Revisão de 2022 publicada no JAMA concluiu que multivitamínicos não previnem doenças cardiovasculares nem câncer em pessoas saudáveis
  • Se você come frutas, vegetais, proteínas e grãos variados, provavelmente já obtém o que precisa

Quando faz sentido: Idosos, gestantes, pessoas com restrições alimentares severas ou deficiências diagnosticadas. Sempre com orientação profissional.

Os que não funcionam (ou não justificam o preço)

Termogênicos

A maioria dos termogênicos são cafeína reembalada com preço inflado. O ingrediente ativo que funciona (cafeína) custa centavos. O resto — chá verde, pimenta, carnitina — tem efeitos negligíveis na queima de gordura.

Alternativa: café preto. Mesmo efeito, muito mais barato.

Glutamina (para performance)

Frequentemente vendida para recuperação muscular e imunidade. Mas em pessoas saudáveis que se alimentam bem, a suplementação de glutamina não melhora performance nem recuperação.

Pode ter utilidade em contextos clínicos (queimados, pacientes em UTI), mas não para quem treina.

”Testosterona natural” / Tribulus / ZMA

Suplementos que prometem aumentar a testosterona naturalmente — tribulus terrestris, ácido D-aspártico, ZMA — não funcionam em pessoas saudáveis com níveis hormonais normais. Estudos controlados não mostram efeito significativo.

Como decidir se um suplemento vale a pena

Antes de comprar qualquer suplemento, faça estas perguntas:

  1. Minha alimentação já cobre essa necessidade? — Se sim, provavelmente é desnecessário
  2. Existe evidência forte em humanos? — Não em animais, não em tubo de ensaio — em humanos
  3. O estudo foi feito em pessoas como eu? — Resultados em atletas de elite nem sempre se aplicam a quem treina 3x por semana
  4. Quem está recomendando? — Profissional de saúde ou influenciador patrocinado?
  5. O custo-benefício justifica? — Creatina a R$50/mês vs colágeno a R$150/mês com evidência fraca

Resumo rápido

SuplementoFunciona?Para quem
Creatina✅ SimQuem treina força/potência
Whey Protein✅ SimQuem não atinge proteína pela dieta
Vitamina D✅ SimQuem tem deficiência confirmada
Cafeína✅ SimPré-treino (uso estratégico)
BCAA⚠️ QuestionávelSó se proteína total é insuficiente
Colágeno⚠️ QuestionávelEvidência fraca, expectativas baixas
Multivitamínico⚠️ QuestionávelSó com restrição alimentar ou deficiência
Termogênico❌ NãoCafeína reembalada com preço inflado
Glutamina❌ NãoSem benefício para pessoas saudáveis
”Testo natural”❌ NãoNão funciona em níveis normais

Conclusão

A maioria das pessoas não precisa de suplementos — precisa de uma alimentação melhor. Creatina e proteína em pó são os poucos com evidência forte e custo-benefício real. O resto, na maioria dos casos, é marketing sofisticado vendendo resultados que a alimentação e o treino já entregam.

Antes de gastar com suplementos, invista em comida de verdade. E se decidir suplementar, escolha com base em evidência — não em embalagem.